
Affonso Pires Martins foi o quarto filho de Manoel Pires de Moraes e Genoveva Martins de Souza, tendo nascido no ano de 1907. Ele conviveu com os seus quinze irmãos, especialmente os mais velhos – Asmira (1902), Otávio (1903), Hygino (1904) e Possidônia (1908) – tendo passado a infância e a juventude na labuta diária e rude da Fazenda Grande ou Comprida, em Paraúna – GO.
Tinha dezoito anos quando perdeu a mãe, Genoveva, em 1925. No ano seguinte, recebeu do pai a incumbência para que, vestido no paletó de linho branco, fosse ao vizinho proprietário rural, Sr. Abílio Sardinha da Costa, para pedir a mão da sua filha Josefa. Lá chegando, Affonso se apresentou:
– “Sr. Abílio, com todo respeito, transmito o pedido do meu pai e, caso ela não queira, eu quero; no entanto, se ela não me quiser, eu peço a autorização para casar com a sua outra filha, senhorita Odília Sardinha”.
Josefa aceitou o pedido do Sr. Manoel e sua irmã Odília, o de Affonso e, assim, autorizadas pelo pai Abílio, realizaram-se os respectivos matrimônios.
Do casamento com a primeira esposa Odília Sardinha da Costa nasceram três filhos: Antônio, Abílio e Duarte Pires Martins; todos já falecidos.
Após o falecimento de Odília, em 1935, casou-se com Antônia, sua segunda esposa, que faleceu sem deixar filhos.
Sua terceira esposa foi Cecília Caetano de Moraes, que deixou três filhos: Quintiliano, Zenith e Ireni Pires de Moraes.
Depois do falecimento de Cecília, casou-se, pela quarta vez, com Oliverita, que também faleceu sem deixar filhos.
Sua quinta esposa, Sebastiana Pires Carneiro, também já falecida, deixou três filhos: Vera, Livorno e Zanone Pires Carneiro.
Após o divórcio com Sebastiana, Afonso teve sua última esposa, Maria de Jesus dos Reis. Desta união, nasceram três filhos: Kênia (faleceu ainda jovem), Lairto e Bruno Pires dos Reis (faleceu recém-nascido).
Affonso recebeu a sua parte da herança na Fazenda Grande, se desfez de tudo e se transformou num andarilho da luta revolucionária, típica dos anos 1930, de transição da República Velha para a República Nova, de um mundo em transformação, em luta permanente entre a tirania e a liberdade, de conflagração entre modelos de sociedade que defendiam a modernidade e a barbárie.
A sua irmã caçula Amélia, nas reminiscências dos tempos da Fazenda Grande, lembrava sempre dele como um belo jovem de olhos azuis, porte atlético, elevada estatura, de vigor e energia que não lhe permitiam parar nunca, propiciando uma vida dinâmica, orientada por uma inteligência social incomum aos de sua época. Quando ainda em vida sua mãe Dona Josefa, nas ocasiões em que recebia as raras visitas de Affonso nas residências em Iporá (1956-1960), Amorinópolis (1960-1970) ou em Goiânia (1971-1989), dizia ao irmão:
– “Affonso, você é um homem muito bonito e não sabe dar valor a si mesmo”.
Ele logicamente discordava, mas entendia e se comovia com a preocupação da irmã caçula. Ocorre que os valores que nutriam a vida de Affonso nos remetem ao patamar civilizatório da evolução inexorável da humanidade. Em função disso, ele empenhou sua vida e o que herdou na luta revolucionária. Ele dizia com vigor, fé e energia impressionantes:
– “Perdi tudo que herdei, não volto atrás, sou comunista, a luta é legítima, nós ainda vamos vencer”.
E seguiu sua vida de andarilho revolucionário, que lhe impunha tremendas dificuldades, vencidas com redobrado amor pela vida. Por volta de 1975, ele chegou ao endereço à Avenida Irany Alves Ferreira, nº 499, no Setor Aeroporto, em Goiânia e pediu a ajuda da irmã caçula, em período de luta pelo fim da ditadura militar:
– “Peço sua ajuda para hospedar e cuidar, por uns trinta dias, dos meus filhos caçulas Kênia e Lairto. Se puder, a democracia agradecerá”.
Uma década após, a história registra em memórias póstumas que Afonso venceu! E a democracia eternamente haverá de agradecer!
A Família Pires presta uma homenagem ao revolucionário Affonso Pires Martins, que dedicou sua vida à luta pelo socialismo no Brasil, apoiou a Coluna Prestes e a Aliança Libertadora Nacional, combateu a besta-fera do nazifascismo, defendeu a entrada do Brasil na II Guerra como aliado do Eixo Democrático, ao lado da França, Inglaterra e da pátria-mãe dos povos trabalhadores – a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), contra o Eixo Ditatorial integrado pela Alemanha, Itália e Japão.
O período histórico vivido por Affonso foi marcado pela ameaça de implantação de um sistema de governo caracterizado pela repressão, pelo medo, pelo atraso e pela ignorância do nazifascismo, que germinou na Europa, África, Ásia e América, inclusive no Brasil, dentro do Governo Getúlio Vargas (REISS, 1974)[1].
A Ação Integralista Brasileira – AIB foi um movimento fascista nacionalista brasileiro, criado por Plínio Salgado, em 7 de outubro de 1932. Com a dissolução da AIB pelo Governo Vargas, os seus adeptos planejaram um golpe de estado. Através do Levante Integralista, de 11 de maio de 1938, os integralistas, dentre eles um membro da família imperial brasileira, tentaram invadir o Palácio da Guanabara para depor Vargas, e implantar a ditadura nazifascista no Brasil.
O desiderato repressivo se consumou em 1964, desferindo contra o Brasil o golpe da ditadura militar, que implantou o regime repressivo mais sangrento da história das Américas.
Inobstante suas vitórias de Pirro, os ditadores antinacionais foram, ao final, derrotados pela luta de pessoas como Affonso Pires Martins, que dedicaram suas vidas, inclusive seus bens, para barrar a escalada de Hitler, Mussolini, Plínio Salgado, Golbery do Couto e Silva, e tantos outros travestidos, possibilitando que o Mundo possa desfrutar, hoje, as mais amplas liberdades de trabalho, pensamento, expressão e comunicação.
Sem o engajamento de milhares de pessoas como Afonso, compromissadas com a luta progressista, o Mundo e o Brasil teriam sido dominados pela semente venenosa do nazismo, do fascismo e do integralismo.
Qualquer filho estaria comovido e orgulhoso com a história de um pai revolucionário, homenageado pela família. Contudo, os seus próprios filhos não viveram juntos esta história tão bonita. Talvez por ter ficado viúvo várias vezes a ausência da figura paterna, tão cedo marcou as vidas de seus entes mais próximos. Ainda crianças, os filhos de Affonso foram entregues a parentes e padrinhos para serem “criados”. Assim, viveram separados uns dos outros, enfrentando a vida aos “trancos e barrancos”. Cada qual escolheu o seu caminho: estudou, fez sua opção profissional e construiu sua família.
Affonso era um homem que não ficava em uma só cidade. Sempre mudava de uma cidade para outra. Morou na Capital e em várias cidades do interior de Goiás e exerceu varias atividades: em Jandaia, foi proprietário de lojas de tecidos; em Campinas, bairro de Goiânia, foi dono de armazém de secos e molhados; em Palmeiras de Goiás foi dono de um açougue; em Rio Verde, administrou fazendas; e, em Trindade, era dono de Curtume.
Apesar de uma boa herança do pai, usou-a para desenvolver suas atividades e montar seus pequenos negócios. Era um homem rico quando jovem, mas acabou vivendo a velhice na pobreza e dependendo da assistência dos filhos. Faleceu em Goiânia, no ano de 1996, aos 89 anos de idade, em decorrência de problemas cardíacos.
A história de vida do quarto filho de Manoel Pires de Moraes alcança a dimensão dos bens intangíveis mais valiosos do ser humano. Aparentemente distantes da vida cotidiana e imperceptíveis ao ser humano, tais bens são como o ar que respiramos, mas que, contraditoriamente, conspurcamos diariamente.
Entrementes, um dia nos daremos conta do valor que tais bens intangíveis representam – o ar, a água pura, a liberdade; só se espera que esse momento não ocorra quando o mundo estiver à beira da morte, asfixiado pela poluição e pela ditadura.
Por isso, se hoje respiramos o ar da democracia, nos é imperativo reconhecer o significado da luta de pessoas como Affonso Pires Martins.
Depoimentos
Dilmar Santos Pires Martins – primo:
Lembro-me, por volta de meados do ano de 1975, quando tinha onze anos e morávamos no Setor Aeroporto, em Goiânia, o meu tio Affonso deixou os seus filhos caçulas e meus primos Kênia e Lairto aos cuidados da minha mãe Amélia. Nós brincávamos muito e nos sujávamos de corpo inteiro, como era típico das brincadeiras coletivas de antigamente. Depois era a vez de tomar banho de bucha e sabão, sob a vigilância da mamãe.
Levi de Alvarenga Rocha – técnico em contabilidade ao tempo dos fatos, hoje Contador, Perito Contábil e Advogado:
Fui contabilista na cidade de Trindade – Goiás. Na década de sessenta, nos meus dezoito, vinte anos, tive como cliente o Sr. Affonso Pires Martins, era um homem alto e esbelto, com o rosto comprido, usava bigode e se vestia com camisas sociais, era um senhor duns sessenta anos, bem apessoado, com cabelos esbranquiçados que não mostravam velhice e sim, um ar de singela simpatia e de um verdadeiro industrial.
Ele foi proprietário do Curtume Santo Afonso em Trindade, onde beneficiava os couros bovinos daquela região com o uso do tradicional barbatimão, árvore de pequeno porte do cerrado, além do tanino e outros produtos químicos.
Guardo boas lembranças dele, eis que além de austero com os seus deveres e obrigações, possuía classe. Aprendi muito com ele, pois, semanalmente, a pedido dele, eu datilografava cartas comerciais, umas pedindo descontos para pagamento adiantado das faturas, isto quando o caixa estava bom ou cartas pedindo dilações de prazos, quando estava no vermelho. Ele tinha todo um estilo de industrial, principalmente, sobre redação e estilo de cartas comerciais.
Também era muito bom para ditar uma missiva cobrando providências dos governos nas três esferas, ele sabia reivindicar em nome das indústrias, sabia cobrar as providências tanto da União, como do Estado e do Município.
Ele sempre teve seu lado revolucionário, era respeitado dentro de sua categoria. Representava uma força que incomodava os políticos locais, estava sempre solicitando melhorias. Nos fins de mês, com encargos acumulados, às vezes ele se revoltava com tantos impostos, principalmente, com a elevada alíquota do IPI e do IVC.
Nos momentos de descontração, ele brincava dizendo que se fosse mais jovem queria organizar uma “guerrilha” com base na Serra da Jiboia, com a finalidade de colocar muitas coisas nos eixos.
Eis a síntese das lembranças que tenho do meu saudoso amigo, Affonso Pires Martins.
Goiânia, 20 de outubro de 2016.
(Texto elaborado por Osmar Pires Martins Júnior – sobrinho; com revisão e complementação de Zenith Pires de Moraes Porciúncula e Quintiliano Pires de Moraes – filhos; Cynthia de Moraes Porciúncula, Vanessa de Moraes Porciúncula Antolini e Adriana Teixeira de Moraes – netas)
[1] REISS, Regina Weinfield. Integralismo (o fascismo brasileiro na década de 30), por Hélgio Trindade. São Paulo, DIFEL, 1974. Rev. adm. empres., 14(6): 124-126, Dez. 1974.
