
Ismar Pires Martins é o segundo filho de Amélia Pires Sardinha e Osmar Martins Barros, nasceu em 8 de dezembro de 1957 na cidade de Iporá-GO; mudou-se com a família para a cidade de Amorinópolis, em 1960, que fica distante apenas vinte quilômetros, onde passou a infância e iniciou os seus estudos no Grupo Escolar Alfredo Nasser e depois no Ginásio Macabeus, atual Colégio Analícia Cecília Barbosa da Silva.
A infância de Ismar, entre três e treze anos de idade, foi vivida em Amorinópolis. Foi um menino alegre, que se apresentava em festivais de música, tendo conquistado concursos da cidade, por duas vezes, como vocalista, ao lado do violonista José Inácio, no Cine ATLAS. Destacou-se como hábil meio-campista, integrando o time da cidade nos Campeonatos Regionais de Futebol Amador.
Numa época que não existia televisão, apresentava peças de teatro, no palco improvisado da garagem/alpendre da casa onde morava com seus pais e irmãos, atraindo a população da cidade, em hilariantes apresentações como comediante.
Ressalte-se ainda, que Ismar foi o mais jovem componente da fanfarra do Ginásio Macabeus, contribuindo para as elogiosas apresentações da banda, nas cidades da região, geralmente durante as datas festivas.
Em 1970, mudou-se com a família para Goiânia, onde concluiu a primeira fase do segundo grau no Colégio Agostiniano, onde, graças à sua habilidade no futebol o levou à seleção do Colégio. A segunda fase do segundo grau foi concluída no Colégio Carlos Chagas, durante o curto prazo de apenas dois anos de estudos.
Em 1976, passou no concorrido exame vestibular para o curso de Direito na Universidade Federal de Goiás – UFG, concluído em 1980. Concluiu a pós-graduação em diversas áreas do Direito, logrando os títulos de Especialista em Direito Constitucional; Especialista em Direito Administrativo, ambos pela Escola Superior da Polícia Militar de Goiás; e de Especialista em Direito Agrário, pela Faculdade de Direito da UFG.
Durante a graduação na Faculdade de Direito da UFG, Ismar destacou-se por suas notas excepcionais, pelo desempenho como monitor e por sua iniciativa, juntamente com dois colegas de sala de aula, Hildeu Andrada e José Portela Nacente, em realizar o primeiro programa de televisão exclusivo de debate e entrevista, ao vivo, sobre temas jurídicos, exibido pela Televisão Brasil Central – TBC.
O Programa Direito em Debate angariou notoriedade entre os estudantes, professores, advogados, juízes, promotores de Justiça e demais operadores do Direito em todo o Estado, em face da profundidade, pertinência e importância dos temas enfrentados, destacando-se, os seguintes: “Lei Fleury”, com o Professor Geraldo Gonçalves – PUC-GO; “Lei do Divórcio”, com o Advogado Otaviano de Miranda, então presidente da OAB-GO e professor da PUC-GO; “Aspectos extrovertidos da Lei do Divórcio”, com o Professor Carlos Dayrell, da UFGO; “Lei do Inquilinato”, com o Professor Geraldo Gonçalves da Costa, da PUC-GO, depois Desembargador do Tribunal de Justiça de Goiás – TJGO; “Execução Penal”, com o Professor Licínio Leal Barbosa, da UFGO; “Tribunal do Júri”, com o Juiz e Professor Geraldo Deusmar; “Direitos e Garantias Individuais”, com o Advogado Olavo Berquó, presidente da OAB-GO; além dos temas programados, “Direito de calar” e “Eutanásia”, mas que não foram ao ar.
O programa cumpriu importante papel, tendo em vista que, semanalmente, debateu junto à sociedade temas ousados que desafiaram os limites impostos aos brasileiros e aos goianos, em particular, por uma das mais longas ditaduras militares na América do Sul. Durante este período, vigiam a falta de liberdade, a perseguição, a discriminação e a mais completa censura, que impediam a imprensa livre, a exposição do pensamento e as manifestações em todos os aspectos da vida. Tais fatores impediram a continuidade do programa.
Naqueles tenebrosos tempos de arbitrariedade institucionalizada, Ismar, Hildeu e Portela foram surpreendidos com a informação, prestada por um funcionário, ali mesmo, no estúdio da emissora, de que aquele seria o último programa, de uma série semanal de três debates sobre o Projeto de Lei da Anistia, com o conceituado advogado e presidente da OAB-GO, Wanderley de Medeiros. A ordem, segundo o funcionário, teria vindo do então governador biônico do Estado, Ary Valadão.
Como editor do programa, o jovem Ismar propôs, e a proposta foi imediatamente aceita, que tanto debatedor como os três entrevistadores protagonizassem um inédito protesto, ao vivo, contra a censura e em defesa da democracia.
Assim foi feito: tão logo se realizou a chamada do programa, na semana seguinte, já no ar, todos eles se levantaram e saíram do estúdio, deixando a emissora por alguns minutos fora do ar, até que um improvisado desenho animado preenchesse o buraco na grade da programação televisiva.
Em decorrência da repercussão midiática do ato de protesto, os bacharelandos Ismar, Hildeu e Portela, da Faculdade Direito da UFG, e o presidente da OAB-GO, Wanderlei de Medeiros, se constituíram em autores de expressiva e forte manifestação, dotado de múltiplo significado político, jurídico, acadêmico e informativo, em defesa das vozes e dos pensamentos emergentes pela Democracia, pela Liberdade e pelo Estado de Direito.
Tão logo concluiu o curso de Direito, Ismar Pires Martins foi contratado pela Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de Goiás – FETAEG, para integrar o seu Departamento Jurídico.
Durante 10 anos, assessorou o Movimento Sindical e os trabalhadores rurais no exercício da função social e sustentável da propriedade da terra, aplicando os conhecimentos do Direito Agrário na formulação de políticas fundiárias, da Reforma Agrária e da produção sustentável. Para isso, auxiliou a entidade na criação de Sindicatos de Trabalhadores Rurais em todo o Estado de Goiás onde se destacou na elaboração das pautas de reivindicações dos camponeses e nas negociações com os Usineiros.
Durante uma década de trabalho no Departamento Jurídico da FETAEG, foram realizados seminários e cursos de formação de dirigentes sindicais. O corolário do processo organizativo e educativo realizado se deu com a inserção de um vasto contingente da população campesina na luta pela Constituinte, com a eleição de deputados federais, representantes dos camponeses e defensores das suas bandeiras na elaboração da Constituição Cidadã, de 1988.
A passagem de Ismar Pires Martins pela FETAEG não lhe auferiu apenas conhecimentos jurídicos e experiência no direito coletivo e sindical, mas aprimorou suas convicções sociais. Enquanto aplicava seus conhecimentos jurídicos em prol dos trabalhadores, percebi que o jovem advogado Ismar era um grande jurista, dotado do que se tem de mais belo no ser: a defesa dos direitos humanos, imprescindíveis à dignidade. Ele estava com o trabalhador, vendo neste um sujeito de direitos, com possibilidades para construção de seu protagonismo histórico e assim, deveria estar dotado de autonomia e liberdade, para poder garantir a condição humana, ser sujeito. Por ele, eu me apaixonei, casei e pretendo viver até os últimos dias de minha vida.
Em sua carreira profissional, Ismar Pires Martins foi reconhecido pela categoria dos advogados, que o elegeu presidente do Sindicato dos Advogados do Estado de Goiás. Durante o seu mandato, realizou cursos, seminários e palestras em defesa dos interesses dos advogados, em parceria com a OAB-GO, Associação Goiana dos Advogados Trabalhistas – AGATRA, Instituto dos Advogados do Brasil – IAB-GO e outras entidades.
Juntamente com ouros três colegas advogados, seu irmão Eliomar Pires Martins, o conceituado advogado trabalhista Jerônimo José Batista e o hoje Juiz do Trabalho Edson Carvalho Barros Jr, decidiram propor ao professor Julpiano Chaves Cortez a fundação do Instituto Goiano de Direito do Trabalho – IGT, nascendo ali uma instituição jurídica que colocou Goiás no roteiro nacional dos grandes eventos na área do Direito do Trabalho.
Ismar prestou assessoria jurídica, durante longos anos, ao Sindicato dos Vigilantes e dos Empregados em Empresas de Segurança do Estado de Goiás – SEESVIG, ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas no Estado de Goiás – STIUEG e ao Sindicato dos Professores – SINPRO.
De 1995 a 1996, foi Assessor-Chefe do Contencioso de Posturas Ambientais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente – SEMMA; é coautor da obra “Resgate do Berço Ecológico de Goiânia: atuação da SEMMA no período 1993 a 1996”, publicada pela Kelps em 2007.
Ismar foi ainda assessor do Grupo Executivo de Gestão da Rede Metropolitana de Transporte Coletivo – GETRANS. Entre os anos de 1999 e 2000, foi coordenador da seção trabalhista e advogou para a Massa Falida Encol, com atuação em todo o território nacional. Prestou um trabalho arrojado, que compreendeu a organização de arquivos de documentos vindos de todos os Estados, a coordenação da equipe de advogados, instalados em Goiânia e em outros pontos do Brasil, a realização de audiências nos mais diversos municípios do País, e a atuação jurídica nos Tribunais Regionais do Trabalho, no Tribunal Superior do Trabalho e no Superior Tribunal de Justiça.
Recentemente, em face do seu currículo, do notório saber jurídico e da reputação profissional ilibada, os profissionais do Direito, através de sua entidade maior, a Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Goiás, o elegeu para compor a lista sêxtupla para a vaga do quinto constitucional do Tribunal Regional do Trabalho – 18ª Região de Goiás, durante a gestão do advogado e Presidente Henrique Tibúrcio à frente da OAB-GO.
De maneira inédita, um advogado trabalhista, defensor do reclamante – trabalhador assalariado – foi eleito para a composição da lista de Desembargador da mais Alta Corte Regional da Justiça do Trabalho em Goiás. A eleição de Ismar, dentre os vinte e quatro advogados candidatos, expressou a convicção de toda uma categoria dos advogados de que a balança da justiça deve ser calibrada pelos valores da equidade, representada por profissionais dignos, através dos quais se fortalecem os conceitos de cidadania e da verdadeira representatividade, nas mais diversas instancias do poder, sobretudo, o judiciário.
Depoimento
Henrique Tibúrcio – Advogado, ex-presidente da OAB-GO por duas gestões (2010 a 2012 e 2013 a 2014) e, atualmente, é presidente da Agência de Fomento de Goiás S/A – GoiásFomento:
O jurista italiano Piero Calamandrei disse, certa vez, que os advogados são as antenas supersensíveis da justiça, ressaltando algumas das principais características daqueles profissionais como a coragem, a independência e arrojo.
Tais atributos, por certo, nunca faltaram ao colega Ismar Pires Martins. Desde muito jovem já confrontava qualquer resquício de autoritarismo, observava os direitos constitucionais dos cidadãos e defendia o Estado Democrático de Direito. Ainda estudante, teve um papel imprescindível na realização do programa Direito em Debate, na TV Brasil Central, numa época em que a democracia plena era um sonho, um objetivo a ser alcançado.
É conhecido entre juristas, magistrados e advogados o episódio ocorrido durante uma entrevista com o então presidente da OAB-GO, Wanderley de Medeiros, sobre a Lei da Anistia, no início da década de 1980.
À época, Ismar, um colega e o entrevistado deixaram o estúdio, durante a transmissão ao vivo do programa, como uma forma de protesto, após terem sido informados que não haveria mais edições do Direito em Debate, que insistia em levar esclarecimentos importantes sobre a democracia, a liberdade, a Lei da Anistia e os abusos da ditadura.
Já advogado, fez uma grande carreira no Direito do Trabalho, foi reconhecido pelos seus pares e o Conselho Seccional da OAB-GO chegou a elegê-lo para compor a lista sêxtupla para a vaga do quinto constitucional do TRT-18.
Ismar é um grande defensor do ideal libertário, usou seu conhecimento para lutar pela liberdade e pelos direitos humanos. A coragem que o marcou na juventude o acompanha até hoje.
Goiânia, em 16 de janeiro de 2017.
(Texto elaborado pela professora da PUC-GO, Elizabete Bicalho – esposa)
