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Manoel Pires Martins e Magnólia Neves Martins (Foto: acervo da Família)

 

“O que for teu desejo, assim será tua vontade.

O que for tua vontade, assim serão teus atos.

O que forem teus atos, assim será teu destino”.

Deepak Chopra

Manoel Pires Martins nasceu em 03 de outubro de 1923, em Palmeiras de Goiás, sendo o décimo primeiro filho de Manoel Pires de Moraes e Genoveva Martins de Souza. Quis o destino que, com um ano e oito meses, sua mãe biológica falecesse, sendo criado pela irmã Maria Pires de Araújo, assim como pela segunda esposa de seu pai – Josefa Sardinha Pires.

Mas a orfandade prematura não lhe retirou a doçura ou a forma serena de olhar a vida. Pelo contrário. Cercado pelo amor da família e pelos fortes valores morais e éticos, cresceu um menino saudável física e emocionalmente, com uma personalidade marcante e altiva, que lhe garantiu alçar seu próprio voo rumo à vida adulta.

Cursou o ensino fundamental no Colégio Interno Ginásio Anchieta, localizado no Município de Silvânia/GO e vinculado aos padres salesianos. Daí sua estreita ligação com a Igreja Católica e os princípios cristãos já no início de sua vida. Adorava citar e pautava-se sempre pela lição contida no Salmo 23: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”.

Encerrado o ensino fundamental, mudou-se para Goiânia, fazendo o segundo grau no Colégio Liceu e concluindo sua formação em 1941.

Já nesta época, seu porte esguio e sua beleza física atraíam os olhares apaixonados das moças da região. Mas em 30 de janeiro de 1943, com apenas dezenove anos, casou-se com Magnólia Neves de Sousa, que passou a se chamar Magnólia Neves Martins – sua querida e temperamental Zamba.

O casal recebeu as bênçãos de Deus na Igreja Sagrado Coração de Maria, em Goiânia, cercado pelos familiares e amigos em verdadeira festa. Além da felicidade e da realização do sonho de formar sua própria família, a união trouxe a Manoel Pires Martins outra grande característica de sua personalidade: homem devotado à sua esposa e aos filhos que viriam desta união.

O casal passou a residir com Manoel Pires de Moraes e Josefa Sardinha Pires, na sede da Fazenda Grande ou Comprida, situada onde atualmente encontra-se a cidade de Acreúna – GO, até o falecimento do patriarca. Com a partilha dos bens, foi possível à nova família adquirir e estabelecer residência em sua própria fazenda.

Contudo, o período de morada no interior durou pouco e já no ano de 1945, por motivos de saúde, o casal resolve vender a propriedade rural e estabelecer-se em Campinas, o bairro mais antigo da recente capital de Goiás – Goiânia.

Comprou um caminhão e passou a trabalhar como caminhoneiro, realizando fretes para terceiros. A escolha por este ofício exigiu trabalho árduo e estressante, percorrendo as estradas do país em busca de melhores condições de vida.

E o contato diário com as intempéries da natureza, com a realidade crua do estilo de vida daqueles que se lançam pelos caminhos do Brasil, mas também com a solidariedade de alguns em seus momentos de precisão, trouxe a Manoel Pires Martins o aprendizado do trabalho duro e honesto que nortearam seus passos e forjaram seu caráter nesta existência.

Durante esta época, nasce a primeira filha – Solange Pires Neves, em 12 de dezembro de 1946, sendo que dois anos após, em 29 de dezembro de 1948, vem ao mundo a segunda filha do casal – Sueli Pires Martins.

Com a chegada das filhas, compra um veículo próprio e passa a trabalhar como taxista na capital, sua outra profissão. A realidade das ruas da cidade não difere das estradas do país, sendo novamente posto em prática o valor do trabalho árduo e honesto. Enfrentou sol e chuva, sorrisos e rispidez, na labuta diária para trazer sustento para sua família.

Já que o cenário não era muito distinto, por um curto período, tenta novamente o trabalho como caminhoneiro. Mas já no ano de 1956, após a frustação de iniciar um projeto profissional desgastante e que não atendia ao convívio familiar, vende o veículo para retornar à profissão de motorista taxista, trabalhando em seu próprio carro até a sua aposentadoria.

Em 12 de junho de 1957, o casal resolve adotar seu terceiro filho – José Roberto Pires, completando a família, que ao longo dos anos residiu em vários bairros de Goiânia: Campinas, Setor Sul, Setor Central, Setor Oeste e, por fim, Conjunto Riviera.

No plano religioso, desde a chegada em Goiânia, foi convidado pelo marido da irmã mais velha de sua esposa a entrar em contato com a doutrina espírita e seus fundamentos. Converteu-se à nova religião, sendo assíduo frequentador do Centro Espírita Pai João, localizado no Setor Central, fundado por seu saudoso concunhado, José Monteiro do Espírito Santo.

A forte influência dos ensinamentos espíritas e cristãos é repassada à família com proficiência e seriedade, sempre alertando para a necessidade de se olhar para o próximo com compaixão, assim como de se desenvolver idoneidade moral inabalável para se alcançar o verdadeiro caminho que se leva ao Pai.

“Doa o que doer, sempre diga a verdade” – uma espécie de mantra entoado repetidas vezes e posto em prática em experiências reais e vívidas da família, colocando à prova os preceitos morais que pretendia ensinar aos seus filhos.

Como em certa vez, quando repreendeu sua filha por não assumir publicamente a nova religião abraçada pela família.

As meninas estudavam no Colégio Externato São José em Goiânia, tendo aulas ministradas pelas freiras da congregação. Era costume ser questionada, toda segunda-feira, quem não teria comparecido à missa no domingo anterior, sendo censuradas pelas irmãs as crianças que faltassem ao culto dominical.

Não querendo passar pelo constrangimento, a filha jamais levantava a mão, passando-se por uma verdadeira e atuante católica. Ao contar tal fato para um tio, na presença de seu pai, veio a lição que jamais se esqueceu, e passou adiante:

– “Ao ser questionada pela irmã, levante a mão e diga a verdade: sou espírita. Porque, filha, doa o que doer, sempre diga a verdade”!

Na próxima segunda-feira, mesmo temerosa e insegura, a filha assim procedeu e, diante dos olhares atônitos das outras crianças e da própria freira, acabou por encerrar o questionário semanal sobre as práticas religiosas das famílias nos dias de domingo.

Entretanto, esta rigidez quanto à formação ética e moral era constantemente abrandada pelo afeto e carinho nos momentos íntimos. Adorava crianças e a alegria que elas trazem ao mundo. Por isso, nunca – mas nunca mesmo – andava sem balas ou doces nos bolsos. Simplesmente, lhe encantava o olhar ávido e contente dos pequenos quando ganhavam o prêmio maior – sonhos em forma de açúcar.

Depois de crescidos os próprios filhos, as guloseimas continuaram a ser distribuídas para familiares e amigos, chegando até mesmo às suas netas – para desespero dos pais!

Uma passagem ilustra bem este seu lado terno e infantil.

Em certo domingo, comprou quatro caixas de chicletes gigantes para cada uma de suas netas. Lançamento da época, os chicletes mais pareciam tijolos em forma de goma de mascar, dados o tamanho e a consistência firme nas pequenas bocas das consumidoras.

Lógico que ao entregar o presente, a reação imediata da criançada foi abrir alguns doces para serem devorados. Mas a delícia foi entregue antes do habitual almoço de domingo na casa dos avós.

Imediatamente, os pais bradaram que este não seria o horário adequado para saborear o petisco açucarado, confiscando as caixas e causando extrema decepção e frustação às pequenas.

Contudo, de pronto, ouviu-se uma intervenção:

– “Aqui, não! Minha casa, minhas regras”!

E, novamente, sob o olhar alegre e esfuziante das netas, assim como de suas bocas repletas de tijolinhos verdes, Manoel Pires Martins pode se deliciar em mais um dia de domingo de convívio com a família – sua grande paixão nesta vida!

E a família tinha realmente crescido. Com cinquenta e um anos, nasceu sua primeira neta – Fabíola Evangelista Martins (27 de dezembro de 1974), seguindo-se Graziela Evangelista Martins (30 de junho de 1976), Lorena Pires Nickerson (21 de julho de 1978), Karine Evangelista Martins (13 de agosto de 1978), Arianna Pires Nickerson (28 de novembro de 1984), Davidson Teixeira Filho (16 de julho de 1985), e Anderson Teixeira Filho (13 de agosto de 1989), estes dois últimos depois de seu falecimento.

Infelizmente, em decorrência de problemas com sistema respiratório, em 21 de fevereiro de 1985, com apenas sessenta e um anos, Manoel Pires Martins falece no Hospital Santa Catarina, em Goiânia, tendo como causa da morte infarto pulmonar e enfisema pulmonar.

Deixou saudades para sua viúva, três filhos e seis netos, além de outros familiares e inúmeros amigos. Mas também deixou grandes exemplos.

Jean-Paul Sartre certa vez escreveu: “Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo”.

E sob esta ótica o que se destaca é que Manoel Pires Martins deixou sua marca como homem sereno e equilibrado, justo em seus atos e escolhas; seguro em suas convicções. Aprendeu com o trabalho duro e honesto a se construir um ser verdadeiramente humano, recebendo como presente da Vida uma esposa de personalidade forte e uma família unida por seu exemplo de força e retidão. Sabia balancear milimetricamente a severidade de um preceito ético, moral e religioso com a leveza da compaixão pelo próximo e com a felicidade do sorriso de uma criança. Alguém que comprovou que é possível viver neste mundo com integridade e alegria, com justiça e ternura.

Já em seu derradeiro momento, pediu às suas filhas e esposa que orassem com ele as palavras que mais o impressionaram e consolaram nesta vida e, que agora, pretendo dedicar-lhe em homenagem:

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.

Refrigera minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam.

Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.

Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.” (Salmo 23).

Seus ensinamentos e exemplos jamais serão esquecidos e sempre acompanharão os familiares em seus próprios caminhos. Foram eles adquiridos com a convivência curta, mas intensa, com o homem alto e belo, com grandes olhos verdes, sorriso aberto e bolsos cheios de balas.

Goiânia, em 12 de fevereiro de 2016.

(Texto elaborado pela neta saudosa, Fabíola Evangelista Martins).