
Possidônia Pires Pinto nasceu em 17 de maio de 1908, na Fazenda Grande ou Comprida, em Paraúna – GO, como quinto rebento na sucessão de onze filhos de Manoel Pires de Moraes e Genoveva Martins de Souza.
Viveu na Fazenda dos pais até iniciar os seus primeiros estudos, que foram realizados no Colégio Nossa Senhora das Dores, em Uberaba – MG, onde concluiu o curso primário, em regime de internato.
À época, Possidônia e seus irmãos realizavam longas viagens que duravam dois meses para ir e igual tempo para voltar, utilizando o único meio de transporte disponível – carros de boi que, em comitiva, percorriam o trajeto de 481 km. Hoje, esse percurso pode ser realizado de carro pela BR-452, no curto de prazo de 5 horas e 50 minutos.
Para dar continuidade aos estudos seu pai a matriculou no Colégio da Terceira Ordem Seráfica Santa Clara em Campininha das Flores – Praça Santo Afonso, também em regime de internato. A complementação de sua educação fora confiada às Irmãs Franciscanas, vindas de Au Am Inn, na região sudeste da Alemanha.
Retornou à casa paterna, antes da conclusão completa dos estudos, devido ao falecimento de sua mãe, em 1925, que ocorreu quando era adolescente, aos 17 anos de idade.
Após a orfandade materna, sua juventude transcorreu na labuta diária da vida rural, juntamente com os seus quinze irmãos, especialmente os mais velhos – Asmira (1902), Otávio (1903), Hygino (1904) e Affonso (1906), auxiliando no cuidado dos irmãos mais novos.
Possidônia era uma mulher educada, bonita, alta, forte e esbelta, pele clara, expressivos olhos esverdeados, cabelos lisos e negros. Na adolescência, Possidônia revelou o talento para a música, tendo estudado e aprendido a tocar violino. Os seus pais e irmãos tiveram o prazer de ouvi-la em apresentações reservadas na sede da Fazenda.
Possidônia mudou-se da Fazenda, em Paraúna, após o casamento, para residir e constituir família em Palmeiras de Goiás. Casou-se muito nova com o farmacêutico José Ferreira Pinto.
O Dr. José foi diplomado, em 18/12/1928, pela Faculdade de Pharmácia e Odontologia da Vila Boa de Goyaz, antiga capital do estado, atual cidade de Goiás. A sua Carteira de Identidade Profissional foi expedida pelo Conselho Regional de Farmácia sob o nº 964.

O Dr. José Ferreira era muito respeitado e querido. A Pharmácia São José, de sua propriedade, em Palmeiras de Goiás, gozava de grande prestígio e era afamada na região pelos remédios farmacêuticos eficazes que preparava para a população.
O CASAMENTO INTERRACIAL
A Dona Possidônia casou-se com um elegante jovem afrodescendente, assim descrito com orgulho pela neta, a engenheira agrônoma Possidônia de Fátima Rossi:
[…] O meu avô era descendente de negros, lábios grossos, cabelos crespos e pele morena, achocolatada […].
O casamento interracial nos dias de hoje, em pleno século XXI, ainda é motivo de discriminações, que eram ainda mais fortes no Brasil da década de 1920, quando a República dava os seus primeiros passos na formação e institucionalização dos princípios essenciais ao Estado Democrático de Direito, como cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, promoção do bem-estar de todos sem qualquer forma de preconceito ou de discriminação (ALBUQUERQUE & FRAGA FILHO, 2006) [1].
O casamento com um jovem negro, além dos evidentes aspectos pessoais envolvidos, revelador da personalidade marcante da jovem Possidônia, expressa significado social, pois o fazendeiro Manoel Pires de Moraes apoiou integralmente a filha e acolheu o genro com alegria.
Possidônia Pires Pinto e José Ferreira Pinto tiveram dois filhos – Maurício Pires Pinto, que faleceu prematuramente aos 10 anos de idade; e Maria Lourdinha Pires Pinto. Eles nasceram e cresceram com os pais na Fazenda Engenho da Serra, em Palmeiras de Goiás, antes, localizada a cerca de 6 km da cidade, mas, hoje, dentro da malha urbana.
A sede da antiga Fazenda Engenho da Serra, na atualidade, sob a denominação Boa Esperança, pertence ao Sr. João Dias (falecido) e sua esposa Benevilda. Os sobrinhos de Possidônia desfrutaram de frequentes visitas ao pomar da sede daquela fazenda, saboreando as frutas que, em abundância, podiam ser colhidas in natura – caju, mangaba, baru, jatobá, laranja, manga, goiaba, cajá, muricis, araçás, abacate, ingá, coco da baía, maracujá, lima-da-pérsia e até maçã.
Hoje, aos 75 anos de idade, Luiz Rodrigues Pires, filho de Asmira Pires Rodrigues – a irmã mais velha de Possidônia –, relembra saudosamente daqueles saborosos tempos:
Era uma diversão para a criançada subir nos abacateiros, nos cajueiros e outras árvores frutíferas, correndo sempre o risco das quedas. Eu fui um daqueles que despencou chão abaixo. Felizmente, não quebrei nenhum osso e tudo ficou bem. As crianças eram chamadas à atenção pelo tio José quando batíamos nas árvores para derrubar as frutas, que repreendia com toda educação: “a tia Possidônia não vai gostar”. (PIRES, 2016b)
Na década de 1950, para realizar tratamento de saúde, morou temporariamente em Campinas, cidade que virou bairro de Goiânia, com sua única filha – Maria Lourdinha – em seguida, retornou para sua residência em Palmeiras de Goiás e ali viveu com o seu esposo até o falecimento dele (1975). Em meados de 1976, por motivo de saúde e por saudades do esposo, voltou a residir com sua filha até a noite de 09 de julho de 1977, quando faleceu.
Morando com a filha na Capital, Possidônia deixou sua valorosa contribuição na educação de quase todos os doze netos, nascidos do casamento da filha com Rossini Olinto Rossi (genro que às vezes a chamava de mãezinha): João Rossi e José Rossi (gêmeos falecidos), Possidônia de Fátima Rossi, Jaime Rosselini Rossi, Cláudia Valéria Rossi, Valeriana Rossi, José Olinto Rossi Pinto, José Ferreira Pinto Rossi, Maurício Ferreira Rossi, Fabiana de Lourdes Rossi Oliveira, Renê de Rossini Rossi e Rosália Rossi (falecida).
No lar de Maria Lourdinha e Rossini Rossi, a vida das crianças era completa: saudáveis, alegres, brincalhões, especialmente quando recebia os primos. Por ocasião das visitas de Amélia, irmã caçula de Possidônia, acompanhada da sua meia dúzia de filhos – Osmarzinho, Ismar, Eliomar, Liamar, Dilmar e Delcimar, que se somava à uma dúzia de filhos da Lourdinha, completando uma dúzia e meia de peraltices. Uma festa…
A descendência de Possidônia Pires Pinto perfaz 56 (cinquenta e seis) netos, bisnetos e trinetos gerados pela sua filha, Maria Lourdinha, em comunhão com Rossini Olinto Rossi.
Uma família alegre, disposta, formada pela honradez de pais e avós dedicados ao trabalho decente e honesto. Maria Lourdinha Pires Pinto foi professora da Escola Técnica de Comércio de Campinas e contribuiu para a formação, colocação no mercado de trabalho e o sucesso de uma geração de profissionais. Os descendentes de Possidônia e Lourdinha são, hoje, homens, mulheres e jovens que exercem diversas atividades profissionais ou que ainda estudam em Goiânia, Brasília e até no exterior – Luxemburgo, dignificando a família Pires, o Brasil e os brasileiros.
Goiânia, em 28 de outubro de 2016.
(Texto elaborado por Osmar Pires Martins Júnior – sobrinho; com revisão, participação e aprovação de Possidônia de Fátima Rossi – neta)
[1] ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Palmares, 2006. 320 p.
